Fora esses quatro colégios, a cidade tem escolas fundadas apenas após o candidato completar a idade referente ao ensino fundamental.
Consultada pelo G1, a Secretaria Estadual de Educação do Ceará disse que não pode divulgar nenhum dado, a não ser a pedido do aluno.
Apesar da falta de registros oficiais, não é possível garantir que Tiririca não tenha estudado, já que grande parte das crianças da periferia se preparava em casa antes de ingressar na escola formal. E ele vivia de forma itinerante com a família entre os bairros Picos, Jenipapo e Olho D'Água, na periferia pobre da cidade. Moradores dos bairros onde Tiririca viveu reforçam a possibilidade de ele ter tomado aulas de ensino fundamental em casas particulares.
Quem dava aula nestes locais era a professora Ana Isa Ávila de Braga, que hoje tem 78 anos. Ela disse ao G1, no entanto, não se lembrar nem ter registros que possam comprovar a presença dele nas aulas.
"Fui professora de 1948 até 1977, no Jenipapo, no Circo Operário. Eu só sei do Tiririca na televisão. Nunca conversei pessoalmente com ele. E eu conheço todos os meus alunos, como o José Dário, o filho do Sebastião Matias... Se ele tivesse sido meu aluno, eu recordava. Daqui deste bairro, só existia eu e depois a minha irmã, que também não lembra de ter dado aula para ele", afirmou.
A certidão de nascimento de Tiririca, registrada em 1982, quando ele já tinha 17 anos, informa que o hoje deputado federal nasceu em 1965. O documento tem a assinatura do pai de Tiririca, Fernando Oliveira Silva, uma letra elogiada pela tabeliã Amélia Souza Frota.
Ela disse que, na época, era comum em Itapipoca que os pais deixassem para registrar os filhos na adolescência e isso não impedia que tivessem vida escolar. No título de eleitor de Tiririca, registrado em Canindé, cidade vizinha a Itapipoca, e transferido em 2009 para São Paulo, o humorista declarou ter o ensino fundamental completo e colocou como ocupação "ator e diretor de espetáculos públicos".
O ex-prefeito de Itapipoca Paulo Maciel, de 73 anos, lembra que o pai de Tiririca, Fernando Oliveira Silva, ensinou o hoje deputado federal a trabalhar no circo. A mãe do humorista, Maria Alice da Silva, também atuava. Tiririca ajudava os políticos da época a atrair eleitores para comícios, com piadas fortes. "Eles eram uma família muito pobre, passavam até fome, porque o dinheiro do circo não dava. E a gente procurava ajudar." Quando não estava no circo, a família ficava em frente à prefeitura em busca de oportunidades de pequenos trabalhos ou de acesso ao cafezinho do expediente.
Menino-cachorro
O circo mambembe da família de Tiririca era ainda alvo de espectadores insatisfeitos com as bricandeiras. "Chamavam para ver o menino que virava cachorro. Aí aparecia o Tiririca com um cachorro pequeno na mão e virava o bicho. Às vezes chamavam para ver a mulher que virava peixe e aí a mãe do Tiririca aparecia com um peixe na frigideira. O povo quebrava tudo", lembrou.
Franciné Rodrigues de Souza, de 41 anos, que disse ser primo distante de Tiririca, lembrou que o circo de Tiririca ficava no bairro Boa Vista ao lado do estádio e no terreno onde hoje funciona o colégio Paraíso do Saber. "Tinha um espaço ali. O circo era ali". Tiririca estava sempre mudando de lugar. "Ele morou também no bairro Ladeira, depois morou entre os bairros Picos e Jenipapo", disse.
Morador nos Picos, bairro da periferia da cidade conhecido por este nome por causa das montanhas pontiagudas de mata agreste, o pastor de cabras José Américo de Lima Teixeira, o Miudinho, de 67 anos, disse que jogava bola com Tiririca perto da estação de trem. "Ele sempre morou nos Picos, mas sempre estava no centro de Itapipoca", afirmou.
Morador em Itapipoca desde que nasceu, Flávio Muniz, de 53 anos, disse que ouviu de um antigo contador de histórias de Itapipoca, seu Jerônimo, morto há cinco anos, que Tiririca estudou com Ana Braga e seu pai, Chico Braga, no bairro Jenipapo.
Mistério
O prefeito de Itapipoca, João Barroso (PSDB), disse ao G1 que conversou com Tiririca "apenas por telefone" após as eleições. Disse que não hospedou o humorista em sua casa e também não sabe do paradeiro dele. Barroso quer fazer uma homenagem ao humorista e chamá-lo para inaugurar um circo-escola em construção, mas antes espera que baixe a poeira sobre a escolaridade do conterrâneo.
Paulo Maciel Filho, amigo de infância de Tiririca e dono da pousada Gaivota, na Praia da Baleia, contou que Tiririca já teve dias de descanso na praia algumas vezes. Afirmou, no entanto, que ele também não esteve por lá depois de eleito. "Se ele estivesse eu saberia, porque ela adora bater bola com o pessoal na praia", afirmou.
Com votos suficientes para se eleger prefeito de Itapipoca por 43 vezes (caso isso fosse possível), Tiririca aquece as esperanças de que a cidade ganhe força na Câmara dos Deputados. "Ele é deputado por São Paulo, mas pode dar uma forcinha à bancada do Ceará", disse o prefeito João Barroso.
Já inseridos na polêmica, os itapipoquenses se revoltam com a possibilidade de Tiririca ficar fora da Câmara. Para Flávio Muniz, mesmo que seja analfabeto, Tiririca tem direito a ser eleito, uma vez que ele sempre votou. "O que prova é o papel. Se ele fosse analfabeto, não votava. Se ele tem direito de votar, tem direito de ser eleito", afirmou Flávio Muniz.